Um Ponto de inflexão entre Métodos Ágeis e Escotismo

Escotismo e Métodos Ágeis – Um Ponto de inflexão comum

A onze anos atrás, dois grupos diferentes de pessoas visionárias perceberam a necessidade de deixar para trás um modelo de avaliação humana criado nos primórdios da revolução industrial, em que a pessoa era medida tão somente pelo que ela desempenhava, dentro do que se esperava dela, passando a valorizar aquilo que ela é e agrega de valor pela sua atitude, pró-atividade e sinergia com os demais.

De um lado, a Organização Mundial do Movimento Escoteiro (WOSM) protagonizava mudanças no que chamaríamos de “antigo Programa Escoteiro” para o “novo Programa de Jovens”, em que redefiniu-se a forma de ver o crescimento do jovem, não só como escoteiro, mas como pessoa, um ser ao mesmo tempo uno e social.

De outro lado, dezessete homens reuniam-se em uma estação de ski no estado de Utah, nos Estados Unidos, para discutir novas formas de desenvolver software em que o elemento propulsor deveria ser baseado nas pessoas e não nas tarefas que elas desempenham, na interação entre elas, na cooperação e colaboração, na resposta ágil frente as mudanças no transcorrer de cada projeto.

O Programa Escoteiro (http://www.guialopes.com.br)

No “antigo Programa Escoteiro”, que persistia com poucas alterações desde a sua criação em 1907 por Lord Robert Stephenson Smith Baden Powell, baseado em Etapas de Classe, nas quais os jovens deveriam provar que já sabiam determinados conteúdos, como dar nós em cordas, trabalhos manuais e exercícios físicos, que deveriam reproduzir com qualidade.No “novo Programa de Jovens” a medida de progresso são os Objetivos Educacionais a serem alcançados progressivamente em seis áreas de desenvolvimento, em cada faixa etária envolvida na infância, puberdade, adolescência, juventude e vida adulta. Aspectos relacionados ao desenvolvimento Físico, Intelectual, Social, Afetivo, Espiritual e Caráter.

Assim, deixamos de avaliar apenas tecnicamente e começamos a avaliar cada pessoa por suas crenças e atitudes no dia-a-dia, valorizando as diferenças e o potencial individual de cada um, visível na interação entre elas, por vocações e aptidões na construção de seu time, baseado em responsabilidades complementares, liderança e superação.

Ao Chefe Escoteiro cabe o papel primordial de orientar, criar as condições para que cada jovem encontre e entenda suas vocações, através de instruções e práticas, mas muito além disto, pelo exemplo dado em cada uma das seis áreas.

O Manifesto Ágil (http://agilemanifesto.org/iso/ptbr/)

Em Fevereiro de 2001, um grupo de dezessete pessoas que vinham praticando o que chamariam de Métodos Ágeis, lançaram um manifesto que viria a revolucionar a engenharia de software, em resposta ao insucesso do modelo baseado em comando-controle e na infrutífera tentativa de dominar plenamente todas as variáveis empíricas de um projeto.

No antigo modelo, temos uma rígida hierarquia funcional, com falta de transparência do todo para os integrantes da equipe, que dominam suas tarefas, mas desconhecem ou não se envolvem nas demais, mais que isto, sem estímulo para resolver os conflitos naturais de um processo realizado sob stress e com informações incompletas e insuficientes.

A proposta era apostar na interação humana para a construção colaborativa de resultados de curto prazo e iterativos, valorizando a entrega contínua de valor proporcionada por um ambiente construtivo e sustentável em que cada um possui papel determinante e ativo na relação com os demais, inclusive com fornecedores e clientes.

Ao invés de um gerente ou coordenador distribuindo e cobrando a realização de tarefas técnicas individuais, temos a construção de equipes auto-organizadas, em que não só o projeto como o próprio método e processo de trabalho sofre mudanças adaptativas, de acordo com seus participantes, de forma a aumentar a sinergia, satisfação pessoal e sucesso profissional.

Onde tínhamos um gerente ou coordenador, centralizando controles e decisões, temos agora um orientador, com foco em facilitar o trabalho em equipe e fazer fluir da melhor maneira o trabalho de construção da solução, com aporte ou apoio de técnicas, ferramental e boas práticas de mercado, mas valorizando a opinião e posição dos integrantes do time.

Contextualização histórica

No cerne da revolução industrial, século XVIII, definiu-se que a forma de trabalho mais produtiva era a repetitiva, em que uma estrutura hierárquica e processos claros garantiriam que os operários fariam o maior número de ações especializadas a cada intervalo de tempo trabalhado. Ao mesmo tempo, o modelo de ensino e ciência da época sistematizava leis unificadas para entender o porque das coisas e facilitar técnicas de condicionamento para um ensino padronizado.

Já no século XIX e XX, desde Piaget ao construtivismo, comprovou-se que o crescimento do ser humano e desenvolvimento de sua“inteligência” é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio em que estes estão inseridos. Como cada pessoa possui características próprias, cada grupo deve e pode gerar as condições para um ambiente de crescimento em que todos os envolvidos tenham satisfação em fazer o seu melhor.

Conclusão

Como segundo keynote do evento Agile Brasil 2011, ocorrido em Fortaleza, Joshua Kerievsky, fundamentou sua visão de que um projeto deve buscar a felicidade de todos os envolvidos no ecossistema em que esta inserido. A interação entre pessoas deve ter como base e princípio a transparência e um equilíbrio de forças que permita a cada envolvido poder contribuir para a sua melhoria e para a obtenção de melhores resultados, de forma segura e sustentável.

Não é da natureza humana fazer algo sem entender o porque, mas séculos de condicionamento formaram gerações de pessoas com dificuldade em ver o todo e tomar decisões. Em pleno século XXI, devemos focar no crescimento dos indivíduos, ampliando a sua visão no contexto onde estão inseridos, como cidadãos protagonistas e não apenas espectadores ou executores.

2 comentários sobre “Um Ponto de inflexão entre Métodos Ágeis e Escotismo

  1. Genial…
    Incrível, como temas/assuntos distintos se unem… pois a base são os nossos valores/crenças, independente da atividade.
    E sempre lutamos por valores/crenças que fomos educados, portanto, acreditamos.

  2. Pingback: Um ano e meio de blog – Obrigado galera! | Jorge Horácio "Kotick" Audy

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