2014 e ainda aceitamos Assédio Moral com naturalidade

Recentemente assisti uma defesa de dissertação na UFRGS que resume-se a frase de um dos professores ao divulgar sua aprovação ao final: “Uma dissertação corajosa!”. Uma pesquisa sobre Assédio Moral em empresa estatal, sobre o quanto empresas e pessoas fazem que não veem, que isso é normal.

Assédio Moral é um mal silencioso e em TI é mais comum que gostaríamos, ele constrange, compromete o ambiente de trabalho em diferentes intensidades, empurrando as pessoas assediadas para o limbo, que com o tempo perdem a motivação, acomodam-se, resignam-se, apagam-se talentos e potenciais.

Não é a toa que algumas pessoas temam tanto a auto-organização. Adotar Agile fortalece o time, o senso coletivo, lhes dá voz, destaca o que é desperdício daquilo que é valor, chama a atenção para atitudes que cabem mais no divã de um psicanalista ou cadeia que em um projeto de desenvolvimento de software.

A tempo, não sei quem foi o primeiro a equiparar a pressão no carvão gerar diamantes e a pressão no trabalho gerar profissionais de sucesso, mas deve ter sido uma reencarnação do Taylor ou do Fayol, pois é absurda! Pressão demais em gente só gera futuros problemas de pressão arterial e outras patogenias.

carvao diamante

Assédio Moral: “Conduta abusiva que se manifesta por comportamentos, palavras, atos e gestos que podem causar danos à personalidade, dignidade, integridade física ou psíquica de uma ou mais pessoas, colocando em risco seu(s) emprego(s) e degradando o clima de trabalho.” (Hirigoyen, 1998).

Assédio vertical é quando alguém com posição hierárquica ascendente submete subalterno a constrangimento ou situação vexatória, quer frente ao grupo ou isoladamente, podendo ser através de pressão desmedida, agressão verbal, uso de palavras de baixo calão, rebaixamento cognitivo, entre outros.

Assédio horizontal ocorre entre colegas, motivado por diferenças, inveja, competição, discriminação racial, gênero, costumes, via de regra praticados de forma silenciosa, através de boatos, sabotagem, expondo, cercando ou isolando, usando os mesmos ardis do assédio vertical, mas entre seus pares.

Quem não conhece profissionais que ao serem contratados entram cheios de iniciativa, interesse, engajamento, vontade de fazer acontecer e crescer, mas que após alguns meses se acomodaram, sempre na defensiva, fazendo o mínimo necessário para não serem despedidas, aguardando as férias e a aposentadoria.

Em diferentes leis e projetos de lei municipais temos: “Considera-se assédio moral todo tipo de ação, gesto ou palavra que atinja, pela repetição, a auto-estima e a segurança de um indivíduo, fazendo-o duvidar de si e de sua competência, implicando em dano ao ambiente de trabalho, à evolução da carreira ou estabilidade do vínculo empregatício do funcionário:”

. subestimar esforços;
. criticar com persistência;
. espalhar rumores maliciosos;
. tomar créditos de idéias de outros;
. sonegar informações de forma insistente;
. fixação de objetivos e prazos inatingíveis;
. Perder responsabilidade para funções triviais;
. Ataques persistentes ao rendimento profissional;
. Atacar a reputação por rumores e ridicularização;
. Ignorar, excluir, se dirigir através de terceiros;
. Ofender ou desprezar sistematicamente.

O Brasil é o paraíso dos excessos e desmandos porque aqui a moral é subjetiva, princípios são peças de marketing, por isso a política brasileira é o que é, um pais em que discriminação racial, machismo, prepotência, arrogância e vantagem é tradição, malandragem, traço cultural que muitos se orgulham.

Há grandes empresas que dizem que todos são iguais, mas o diretor ou gerentes são dados a excessos, xingam, gritam, exigem mais do que é possível, o nome disso é ASSÉDIO VERTICAL, palavras de baixo calão não são “força de expressão” e exigir trabalho em excesso não é desafio, é EXPLORAÇÃO.

Muitos funcionários aceitam sorrindo as ofensas e desmandos por precisarem do emprego, alguns pseudo-líderes lavam as mãos, outros pedem ao assediado que procure o assediador (muitas vezes hierarquicamente acima) e se resolva com ele, é tão injusto quanto pedir a uma mulher agredida que vá para o quarto e bata um papo cabeça com seu agressor … precisa mesmo é de polícia!

Isso é Brasil, onde alguns chefes e colegas pressionam e discriminam com frases de baixo calão outros por anos a fio, os mais simplistas se defendem dizendo que é preciso aprender a lidar, é apenas estilo, expressões idiomáticas, faz parte do trabalho, … previsível em um país que prima pela falta de moral e ética.

Tem assediado que justifica o chefinho e os colegas, se sente culpado pela falta de educação e de limites dos outros, talvez a “sindrome de estocolmo” se aplique não só a sequestrados, mas também a assediados. Quando se sentir assim, lembre que o dimensionamento, perfil e verba de sua equipe foi planejado, assim como a pressão e eventuais impropérios verbalizados.

Lugar de profissional sem moral, sem valores, desbocado, assediador, “genioso” como alguns dizem, deveria ser  na cadeia, mas aqui no Brasil são exatamente os que se impõem e crescem, afinal, fazem qualquer coisa para atingir os objetivos … atropelam, mentem, acuam, sabem explorar ao máximo, logo, merecem ser promovidos.

O primeiro passo é a conscientização, pois enquanto vivermos em uma cultura machista, racista, sexista, predatória e agressiva, enquanto seguirmos a Lei do Gerson (ganha quem tira vantagem) e a Lei Ricúpero (falamos o que é bom, o ruim a gente esconde) teremos muitas empresas éticas só na fachada, espero que um dia a máscara caia e elas mudem na marra!

Desejo a todos um 2014 rico em desafios de nos reinventarmos, que todos se motivem a se desenvolver e correr atrás de seus sonhos … parceria para isto não vai faltar, nos vemos por ai!

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7 Respostas para “2014 e ainda aceitamos Assédio Moral com naturalidade

  1. Emerson Schenatto

    Muito bom o artigo. Concordo plenamente com cada palavra dita. Parabéns.

    • Renato e Emerson, agradeço a parceria e desejo um grande 2014 para todos, que continuemos evoluindo para métodos e valores mais “escoteiros” e menos “industriais” … \o/
      [ ] 🙂

  2. Renato Machado

    Muito bom Jorge Audy! Gostei muito, parabns, acertaste em cheio. Abrao e um 2014 de muito sucesso pra ti. Abrao

    Date: Thu, 26 Dec 2013 15:59:16 +0000 To: remac2000@hotmail.com

  3. Conheça e faça parte do blog “Assediados”.
    Um espaço onde vítimas de assédio ou dano moral podem relatar suas histórias, compartilhar experiências, e buscar caminhos para tornar o ambiente de trabalho um espaço seguro, onde seres humanos sejam tratados com o respeito e a dignidade que merecem.
    “Sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”

    • Interessante a proposta do blog, a construção de um canal de comunicação informal, uma comunidade onde a galera pode trocar informações e descobrir que não é um caso isolado e que existem leis e em muitos casos acabam em penalidades … Uma boa iniciativa essa!

  4. Pingback: Faltam profissionais ou faltam motivos? | Jorge Horácio "Kotick" Audy

  5. Pingback: 2016 e ainda convivemos com assédio moral e sexual | Jorge Horácio "Kotick" Audy

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