Governança ágil não é uma opção, é uma necessidade

No meu entendimento, um agilista que não consegue entender a necessidade de governança é como um botânico que somente usa um microscópio para estudar uma espécie. Apesar da relevância deste instrumento, é preciso também usar um binóculo, entender seus hábitos, alimento, habitat, outras espécies com quem interage. Equipes ágeis e seus projetos NÃO são o único objetivo, o próprio cliente também não é, eles são parte algo muito maior, todo um ecossistema.

A academia é pródiga em nos oferecer orientações, quer na teoria geral dos sistemas com Bertalanfy ou na filosofia com o conjunto de teorias sobre reducionismo, entre outras. Elas nos obrigam a usar o microscópio, mas também ter o binóculo e a luneta na prateleira, estuda-se as partes não como fim, mas como meio para entender partes maiores até chegar ao todo e seu contexto.

Meus meta-super-gurus Takeushi e Nonaka, pais da gestão do conhecimento através do modelo SECI, colaboradores da teoria das “Organizações do Conhecimento”, idealizadores do método SCRUM através do mítico e seminal artigo “The New New Product Development Game” na Harvard Business Review de 1986, onde afirmam (em tradução mais ou menos literal):

Embora as equipes de projeto sejam auto-organizadas, elas não são descontroladas. O gerenciamento deve estabelecer pontos de controle suficientes para evitar a instabilidade, tensão e ambiguidade que podem gerar caos. O gerenciamento evita o controle rígido que prejudica a criatividade e espontaneidade, em contraposição apóia a auto-gestão, controle por pares e controle por amor”.

Não estranhe o termo “controle por amor”, pois Nonaka desenvolveu com Konno a teoria do Bá, uma espécie de releitura Zen do modelo SECI, inspirada nos pensamentos de Nishida, fundador da escola de filosofia de Kioto, citado no esforço de fundir a filosofia Zen oriental com o pensamento prático ocidental.

Pedagogicamente falando, controle por amor não é deixar a quem se ama fazer tudo, mas é garantir o seu crescimento, dizendo NÃO quando necessário, liberdade com responsabilidade, estipulando regramentos sempre que preciso!

histórico

É obrigação de um bom profissional, agilista ou não, entender a missão, visão e valores, mas sobretudo a cultura e contexto … não só da sua equipe, nem só do seu cliente, mas de sua área, de sua empresa, ser pró-ativo para que estes valores tenham vez e convirjam para resultados baseados na teoria da equidade, gerando valor real e consistente a toda a cadeia. A solução não é o confronto ou rupturas, mas empatia e sinergia alavancando melhoria contínua.

A utopia da agilidade com SCRUM ou KANBAN é muitas vezes tão mal entendida quanto a holocracia experimentada pela Zappos, em nenhum dos casos é a casa da mãe Joana, as equipes são participes de algo maior que o seu projeto. A estratégia e necessidades de governança equivale ao modelo (mal entendido) da Zappos, que possui esferas interseccionadas, pensadas de forma a gerar relações verticais e horizontais, estabelecendo abstratamente uma estrutura meta-hierárquica, sem ela as esferas seriam feudos fora de controle, cada um por si.

Me desculpem os que trabalham na empresa dos sonhos em que apenas valor para o negócio (muitas vezes subjetivos, alguns até duvidosos) é suficiente. Por outro lado, eu conheço muuuuitas empresas que contratam prestadores de serviços, funcionários, empresas ou autônomos, demitem, reorganizam times, precisam acompanhar e tomar decisões difíceis pertinentes a estas contratações … como custo x benefício em seus diferentes níveis e necessidades.

Você pode discordar de estimativas, achar que é uma ditadura industrial, quer seja estimar em pontos, dias ideais, dias, turnos, horas, beringelas, não importa … algum tipo de estimativa para que se possa avaliar e comparar historicamente a produção de um time e profissional, gerar P x R. Pessoalmente, ficar feliz só porque o cliente, interno ou externo, está feliz é bom mas não é conclusivo.

Fosse eu proprietário de uma grande corporação (não sou e não quero ser), com certeza implantaria métodos ágeis e uma governança pró-ativa e atuante, disposta a entender, discutir e estabelecer métricas efetivas que estabeleçam bons indicadores relacionados ao gerenciamento ágil de projetos, valor para o negócio, qualidade de software, documentação e, acima de tudo, gestão do conhecimento para melhoria contínua … 360°, horizontal e vertical.

Resumo da ópera: Só perguntar se os envolvidos estão felizes é no mínimo temerário, todas as empresas que eu conheço precisam mais que isso para tomar suas decisões … aquelas muitas decisões que uma empresa toma todos os dias. Essa afirmação em nada conflita com agilidade, talvez conflite com feudos, fossos e jacarés, inseguranças e defesas psíquicas … mas isso já é assunto de outro post!

dashboards

Tem gente que abusa da auto-suficiência e da ausência absoluta de métricas, sendo que o Kanban por exemplo, sugere cycle time, lead time, throughput, burnup, qualidade, enquanto o Scrum fala em manter um release plan, sprint planning, burndown. Afinal, quais os dados úteis que uma governança extrairia para exercer o seu relevante papel, além do índice duvidoso da felicidade?

10Kanban

 

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2 Respostas para “Governança ágil não é uma opção, é uma necessidade

  1. A coisa que eu mais gosto nos seus posts é a minha expansão de horizonte. Hoje eu aprendi que existe um trem doido chamado Holocracia (!!!!) e que ela foi aplicada em uma empresa que eu nunca vira mais gorda, a Zappo. E quase sempre eu concordo: uma empresa clássica não funciona mais, chegou a hora de irmos além. Em Física, e na Ciência em geral, quando um modelo atinge o limite da validade empírica, resultados experimentais que contestam o modelo começam a pulular e todos percebem que algo melhor deve existir. Me parece que estamos exatamente no ponto em que as contestações começaram a pulular, e em algum tempo alguém vai dizer – se é que já não disseram. 😉

    • Da sociologia, psicologia, ciências sociais, inclusive RH, sempre tem muita base legal para cruzar, acabei de postar sobre OKR (objetives and key results), muitos pontos de contatos … já que a gente está nessa viagem, vamos aproveitar a paisagem e conhecer suas histórias né. Sucesso aí tchê, até mais, hora dessas, na highway digital \o/

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