Aprendizado vicário e auto-eficácia

Albert Bandura foi um psicólogo e pesquisador Canadense que desenvolveu a teoria da aprendizagem social, pesquisando e definindo conceitos como os de aprendizado vicário e auto-eficácia … fun-da-men-tais! Ambos são conceitos que podemos e devemos nos empenhar em desenvolver em nós mesmos e em nossas equipe, independente de nosso CHA, papel ou expertise.

Uma empresa que permite que um gestor solape ou permita solapar, minar estes valores, diminuindo subordinados, cobrando injustamente, não valorizando seus feitos, compatíveis a seu perfil, cargo e experiência, está gerando um círculo vicioso que o levará a zonas de conforto, baixa auto-estima e alto turno-over.

Cada um tem seu potencial, perceber isto e cercar-se de talentos é o maior valor de um líder, e não estou falando apenas de badalados profissionais seniors, pois há talento em jovens aprendizes, estagiários, juniores, plenos e seniors. O nosso papel é perceber o talento de cada um e montar times com sinergia crescente.

Um talento desabrocha quanto mais lhe derem condições e suporte, investindo em sua auto-eficácia, ele precisa ver e acreditar que pode mais, sua curva de aprendizado intensifica-se quanto maior forem as oportunidades. Não só aprender por si, mas também pela observação, mesclando com o que Tuckman chamou de suporte social, da chefia, colegas e parceiros pelo coletivo.

Aprendizado vicário

Segundo Bandura, todos os fenômenos que ocorrem por meio de experiências diretas podem também ocorrer de forma vicariante. Ele explica que por reforço vicariante entende-se o aprendizado a partir da observação de outras pessoas e das consequências geradas ou obtidas por elas. Por esta abordagem sua teoria também é conhecida como de Aprendizagem Observacional.

Aprendizado ou reforço vicariante é a essência de grupos de usuários como o GUMA e de comunidades de prática como o TecnoTalks. O compartilhamento de conhecimentos e experiências, a apresentação de cases, o uso de workshops e jogos tem este foco, aprender a partir da observação, aprender pelos acertos e erros dos outros ou acertando e errando em jogos criados para isto.

Este é um procedimento primário ao ser humano, desde bebês observamos e modelamos nosso comportamento repetindo aquilo que percebemos benéfico para os outros e que (provavelmente) será também para nós. Caso não seja, nos faz questionar porque foi bom para outro e não a nós, deveria ser para ambos.

Bandura afirmou em sua teoria que a observação gera entendimentos (reforço vicariante), que influenciam nosso comportamento (modelagem), o que exige atenção. De certa forma, fala em gestão ágil, de representações visuais e verbais para garantir a retenção, seguido da necessidade de repetição até perceber de fato o valor através dos benefícios esperados.

Temos grande parte de nosso conhecimento sendo adquirido pela observação e imitação, muito do nosso modelo mental reflete coisas apreendidas e repetidas. A maior parte do saber acumulado segue este modelo, nem empírico, nem experimentação, mas principalmente por mimetismo, no bom e mau sentido.

Além de GU e CoP, conceitos oriundos do mundo Agile, design thinking, lean startup, também valorizam a gestão visual baseada na interação entre pessoas, erros e acertos debatidos e reprogramados, desde técnicas para visão como BMC, elicitação por US Mapping, validation board, focus groups, sprint planning, daily, review e retrospectivas, realizadas de forma colaborativa, todos sustentados por reforço vicariante e auto-eficácia.

Auto-eficácia

Auto-eficácia sustenta-se no senso de auto-estima, pois temos frases célebres como Ford em que “se você acredita que pode ou não acredita que pode fazer alguma coisa, provavelmente você sempre estará certo”. Acreditar que é capaz de fazer ou tentar e aprender até conseguir é o primeiro passo. Também a frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” atribuída ao poeta francês Jean Cocteau, pois acreditar ser impossível torna tudo mais difícil.

Pessoas com muita auto-eficácia possuem maior confiança em si mesmos, tendem a ser mais empreendedoras, enquanto o contrário demonstra pessoas mais acomodadas e sem resiliência. A auto-eficácia pode ser incentivada através do incentivo, pela  valorização dos pontos fortes e realismo dos pontos fracos, incentivando a capacidade de cada um em superar obstáculos, de aprender com os erros, de crescer e se superar.

As pesquisas de Bandura sugerem que com o aumento da auto-eficácia as pessoas sentem-se mais fortes e capazes, mais resilientes, reagindo melhor a imprevistos e surpresas, trabalhando melhor riscos e aproveitando melhor oportunidades. É a antítese da atitude de chefes autoritários e controladores, pois assim aumentam sua sensação de poder e dominação, mas diminuem a auto-estima e auto-eficácia dos seus, garantindo assim apenas o mínimo de resultados.

Quanto aos métodos ágeis, os estudos de Bandura podem ser trazidos para nossa realidade, pois ele validou que equipes desenvolvem um conceito coletivos de (auto-)eficácia, tornando-as mais unidas e engajadas, certas de que juntos resolverão qualquer problema e atingirão vitórias. Estes princípios são utilizados psicologicamente por treinadores, militares, grupos e equipes.

Uma virada de século mítica, Agile, gestão do conhecimento, gestão por competências, gamestorming, design thinking, lean startup, Bandura teve a sensibilidade de perceber e desenvolver teorias que explicassem parte disso:

bandura,2001

“Superando tempos difíceis, as pessoas saem da adversidade com um forte senso de eficácia.” – 1994

“A auto-confiança não necessariamente garante o sucesso, mas a auto-descrença certamente garante o fracasso.” – 1997

“As pessoas não só ganham maior compreensão através da observação e reflexão, mas também reavaliam e alteram seu próprio pensamento.” – 1986

“Auto-eficácia é a crença na própria capacidade de organizar e executar as ações necessárias para gerir situações potenciais.” – 1986

“Uma teoria que nega que os pensamentos possam regular as ações, não se presta facilmente à explicação do complexo comportamento humano.” – 1986

“As pessoas com auto-eficácia acreditam na sua capacidade de enfrentar tarefas difíceis como desafios a serem dominados e não como ameaças a serem evitadas.” – 1994

“As pessoas que se consideram eficazes, pensam e sentem de maneira diferente daqueles que se percebem ineficazes. Eles produzem o seu próprio futuro, ao invés de simplesmente tentar prevê-lo.” – 1986

“A psicologia não pode dizer às pessoas como viver suas vidas. No entanto, podem fornecer os meios para efetuar mudanças pessoais e sociais. “- 1977

“Se as crenças de eficácia refletissem apenas o que as pessoas podem fazer rotineiramente, elas raramente seriam um fracasso, mas seria definir aspirações tão somente em seu alcance imediato, sem apresentar o esforço extra necessário para superar suas performances comuns”. – 1994

“As crenças das pessoas sobre suas habilidades têm um efeito profundo sobre essas habilidades. Capacidade não é uma propriedade fixa; há uma enorme variabilidade em como você executa. As pessoas com senso de auto-eficácia se recuperam de falha; eles veem as coisas em como lidar com elas, em vez de se preocupar com o que pode dar errado. “- 1996

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11 Respostas para “Aprendizado vicário e auto-eficácia

  1. Augusto Rückert

    Ótimo post Jorge. Eu não conhecia o Bandura, mas já consegui associar a uma série de leituras e escutas que tenho feito.
    Ainda me incomoda como essas construções/pesquisas psico-sociais dos últimos 50 anos parecem ainda não estar presentes no nosso cotidiano. Ainda nos fixamos em ideias do século retrasado como verdades infinitas, enquanto ignoramos um mundo de ciência que temos disponível.

    Durante a faculdade, um professor meu dizia que inteligente não é quem aprender só com os próprios erros, mas com os erros dos outros também. Uma aprendizado muito coerente com essa visão do Bandura aprender com a observação do outro.

    Já questão da auto-eficácia me lembra outras três situações/pessoas:
    – Daniel Pink, em seu livro Drive (ou motivação 3.0 aqui no Brasil), onde ele desmonta com as bases da motivação baseada em fatores extrínsecos. Vou precisar reler algumas vezes para conseguir usar os argumentos e exposições dele;
    – Essa excelente aula do professor Nilton José Machado (USP) – https://www.youtube.com/watch?v=NjxdcTmXquA, onde há a seguinte citação: “- A inapetência é a porta de entrada para a incompetência”, ou seja, para aquele que nada serve e nada apetece, não há possibilidade de eficácia;
    – E uma citação do grande mestre Bruce Lee: “Empenhar-se ativamente para alcançar determinada meta, dá à vida significado e substância”

    Um forte abraço!

  2. A tempo, recomendo o livro motivação 3.0 eu tenho, mas achei um tanto previsível, para quem é da vibe Agile meio que são conceitos básicos de auto-organização e liderança ágil, mas talvez seja um livro interessante porque formata isso tudo didaticamente para todos os públicos, aliviando assim preconceitos e resistências.

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