Poiesis, a arte da criação, da construção, do ser criativo

Tenho paixão pela filosofia, tanto quanto acredito em linguagem ubiqua, não me venham com papo ininteligível para não iniciados, qualquer profissional que não consegue traduzir e tornar seu conhecimento em algo acessível é como um bom papíro egípcio antes da pedra de roseta … inútil!

Prefiro a filosofia enquanto ação pessoal e coletiva ao permitir-se entender o seu entorno, fugir do “parecer”, para “ser”. Tem tudo a ver com os princípios Lean, com auto-conhecimento, o esforço e prazer em entendermos de vida, grupo, equipes, sistemas sócio-técnicos, saboreando um bom tanto de psicologia aplicada.

A falta de um pouco de filosofia nas organizações acaba gerando executivos e profissionais ocos, que só acreditam em números enquanto olham para seus umbigos e carteiras, como se as pessoas ao seu redor fossem um mal necessário, lobotomizados, ao invés de solução para todos os seus anseios.

Na Grécia, trezentos anos antes de cristo a matemática era recheada de significado, de natureza e poesia, dois mil anos depois e muitos profissionais e empresas acreditam que gestão de pessoas resume-se a números, sem empatia, sem sinergia, pois acreditam em hierarquia, que para alguém ganhar, outro tem que perder, simples assim.

Nas escolas gregas, com Platão, Sócrates e Aristóteles, surgiram muitos os conceitos que sustentam nossas ciências humanas e sociais, especialmente a filosofia. Deste período, resgatamos reflexões essenciais sobre artes, cultura, sociedade e felicidade. Na Teoria da Arte, de Platão trago a ideia da poíesis como a capacidade de criar alguma coisa de forma criativa.

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Nos escritos de Platão é possível entender a poíesis como processo criativo, ação, conhecimento e aprendizado lúdico, convertendo algo ainda considerado como “não ser” em “ser”. Na maiêutica Socrática a descoberta de suas próprias verdades em movimentos intrínsecos de criação, mediante a prática do auto-conhecimento.

“Indústria” de Software

Fossemos dados a filosofar um pouco e teríamos termos mais condizentes para a TI e seus profissionais. “Indústria” ou “engenheiro” de software, são dois termos que remetem a um trabalho de produção em escala, hierarquizado, especializado, conceitos criados pela revolução industrial visando centralizar a tomada de decisão, baratear e simplificar a produção, “operários” substituíveis.

Profissionais do conhecimento, fossemos mais afeitos a filosofar e talvez os termos seriam mais realistas, ao invés de “indústria” talvez fosse “atelier”, ao invés de “engenheiro” talvez fossemos “artesãos”, ao invés de “métodos ágeis”, talvez fossem “métodos construtivistas”. No sentido figurado, somos mais artesãos que qualquer outra coisa, modelando, desbastando algo que aos poucos vai se transformando em uma obra acabada, imprevisível em sua previsibilidade.
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Projetos – Nomes ou números?

Em meio a posts sobre metodologias, impossível não relembrar com pesar a morte da maiêutica Socrática, da poíesis Platônica e da lógica Aristotélica. Insistimos nos mesmos erros, onde o cliente e a organização são os maiores prejudicados, repetimos os mesmos passos e nos surpreendendo por novamente dar errado, impondo hierarquia e engessando processos para solucionar algo que deveria ser mais centrado na interação entre pessoas, no engajamento, no coletivo e auto-conhecimento.

Em um webinar gravado para o PMI em 2014, provoquei esta dicotomia entre nomes e números, discutindo o continuum do mindset da revolução industrial, mas nenhum dos meus argumentos é tão poderoso quanto as escolas gregas – Faltam filósofos e filosofia na TI!

É comum empresas focarem na contratação de consultorias, ferramentas, aquisição de quadros brancos, postits e outras “soluções” para o problema. Algumas custam a entender e atrasam meses, talvez anos mudanças que dependem de alçada àquelas pessoas que elas mesmos contrataram por serem talentosas, mas que são sufocadas por hierarquia, desmandos e idiossincrasias geradas por quem idealiza uma solução mágica.

Sinergia ou entropia?

A filosofia aproxima, desarma, gera sinergia a partir da transparência e conhecimento, ao contrário da entropia gerada pelos modelos privilegiados por muitas empresas, onde a restrição de alçada leva cada profissional a privilegiar o “eu”, “tu”, “eles”, raramente o “nós”.

A auto-organização, as metodologias ágeis e seus princípios, kaizen e gemba, o uso de técnicas para ludificação do trabalho, retrospectivas … enquanto empresas e gestores não entenderem a grande quebra de paradigma aqui envolvida, ainda teremos muita frustração decorrente de expectativas industriais do século XIX travestidas de termos e discursos moderninhos.

Acredite, falta um tanto de filosofia e filósofos na TI!

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