2016 e ainda convivemos com assédio moral e sexual

Ano de 2016 e ainda pessoas comuns optam por não reclamar quando assediadas moral ou sexualmente, simplesmente para não serem ainda mais prejudicadas, por não poderem confiar na ética daqueles quem detém o status ou poder político, econômico, social ou funcional, em todas as esferas.

A palavra “ética” vem do grego ethos e significa aquilo que pertence ao “bom costume”, “costume superior”, “portador de caráter” (wikipedia).

Decididamente, há um hábito cultural infeliz que favorece a relativização do que é errado, assim, motivado pela banalização daquilo que deveriam ser tratados como um ato gravíssimo, pelo medo de represálias previsíveis pessoais ou profissionais, a maioria prefere a resignação.

1. Uma amiga de minha filha, que conheço a uma década, MENOR DE IDADE, publicou um texto corajoso em seu perfil no mês passado (Jan/2016): “Hoje me aconteceu uma coisa ruim,  3 vezes em um só dia. Ainda tem gente que diz que mulher não sabe receber elogio, quando um cara passa por ela buzinando e mandando beijinhos ou quando ele passa gritando gostosa e chamando ela de delícia. Eu já não sei mais o que responder pra essas pessoas, porque eu não consigo acreditar que um ser humano não saiba reconhecer a diferença entre um elogio e um assédio. Elogios que deveriam ser frequentes, VIOLÊNCIA NÃO. Essa violência moral, que acontece ínfimas vezes com milhares de mulheres todos os dias, já se tornou comum. JÁ SE TORNOU COMUM, e as únicas pessoas que eu vejo lutando pra reverter essa situação são aquelas que sofrem com isso diariamente, mulheres , com algumas poucas exceções de amigos que têm contato com as experiências delas. Esse texto todo não foi porque hoje aconteceu uma coisa diferente comigo, foi pelo fato dessa coisa ser tão frequente que já virou banal. Eu não vou ficar em silêncio enquanto essas situações continuarem gritantes. Pra quem leu até aqui e só conseguiu concluir que isso é frescura de feminista, eu reforço mais uma vez que a única coisa que uma mulher sente quando tu passa buzinando por ela é repulsa e aversão. Não seja esse bosta.

#2. No início de 2016 o TJ gaúcho corrigiu um absurdo decidido em primeira instância, onde um funcionário assediador se utilizou do cadastro do banco para obter o número do celular de uma cliente de 24 anos que havia atendido momentos antes e lhe enviou uma mensagem propondo um “sexo bom”. Ela reclamou ao gerente da agência bancária em questão, mas ele não viu nada demais, assim como o juiz que julgou em primeira instância, dizendo que “cantadas” são aceitas socialmente e que recebê-las faz parte das conquistas de igualdade entre sexos. Temos aqui três espécimes trogloditas que deveriam estar sendo expostos em gaiolas como prova viva de uma cultura retrógrada, onde assédio sexual é confundido com tradição, coisa de macho alfa:
– http://www.conjur.com.br/2016-jan-09/tj-rs-reforma-sentenca-culpou-vitima-assedio-sexual
– https://www.facebook.com/SuperelaOficial/videos/466825686776003/?pnref=story

#3. Na década de 80 eu atendia uma construtora de médio porte, o clima na área administrativa era de terror quando o dono aparecia, truculento e desbocado, xingava a todos sem limites ou resposta. Pior, em dado momento, tinha um gerente executivo que assediava uma das secretárias, que (provavelmente) precisava do salário. Ela resignava-se pelo gerentão deixar a porta semi-aberta para (de forma que ela ouvisse) tecer comentário absurdos sobre como ela era bonita e o quanto ele poderia fazer ela feliz. Quando vi isso acontecer, tinha vinte e poucos anos, recém saído da faculdade, caí na asneira de comentar com ele que a porta estava aberta e dava para ouvir, que foi constrangedor … ele me enquadrou dizendo que aquilo não era assunto meu. Quando comentei com ela que não sabia o que dizer, a resposta é que não precisava se preocupar, ele era assim mesmo, que não tinha problema porque não passava disso.

#4. Em uma empresa de grande porte na qual trabalhei durante anos, reclamei formalmente várias vezes da postura de um gerente que usava palavras de baixo calão, misturas de assédio moral e sexual direcionadas as meninas, como “prefiro que tu assumas essa tarefa, porque a ti eu posso mandar tomar no __ e se for o xxxxxx eu não posso mandar ele tomar no __” ou “quem tem uma ______, consegue o que quer“. A resposta mais comum as minhas reclamações a esta pseudo-ouvidoria é que somente eu o levava a mal, “porque eu era escoteiro“, em certa ocasião tiveram a imoral indescência de ir perguntar a uma das meninas assediadas se ela havia se importado, e adivinha: ela disse que não, era o jeito dele se expressar. Um tempo depois chegou a hora dele … foi promovido a diretor! Não era o único, conheci piores em agressividade, mas esse superava em vocabulário.

#5. Uma sociedade e um mercado de trabalho em que o assédio é banalizado, onde as vítimas tem medo de reclamar porque precisam do salário no final do mês ou por simples fragilidade de suas posições. Elas sabem que são a parte mais fraca e quando buscam ajuda de quem deveria lhes ajudar, como um gerente, o RH ou mesmo um juiz, são diminuídas, quando não responsabilizadas pela atitude do assediador/agressor. A tempo, importante, todos sabemos que entrar na justiça contra uma empresa é um ato de alto risco, pois muitas empresas preterem candidatos com ações na justiça contra empresas anteriores, tachados silenciosamente de encrenqueiros ou perigosos … Sim, está disponível às empresas verificarem se a pessoa tem ações contra outras empresas e muitas encaram injustamente isso como um risco, porque “a pessoa pode ser uma encrenqueira”.

Em 2014 fiz um post intenso sobre esta questão, a partir de uma pesquisa sobre assédio vertical e horizontal no trabalho. Obviamente, nada mudou em 2 anos https://jorgekotickaudy.wordpress.com/2013/12/26/2014-e-ainda-aceitamos-assedio-moral-com-naturalidade/

assédio

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2 Respostas para “2016 e ainda convivemos com assédio moral e sexual

  1. Um assunto bem fora da sua média. Parabéns de novo, profundo e preciso. Tenho lido muito sobre Economia e um aspecto que torna esse ambiente pior é a inexistência de oportunidades, de alternativas. Um economia que cresce e abre espaço para empreendedores, pode abrir espaço para empreendedores que consigam resultados sem recorrer ou reforçar (e até negar) esse tipo de atitude, oferecendo opções a quem não aceita se submeter. O que você acha?

    • Acho que entre empreendedores há um mindset semelhante ao que se atribui aos Millenials, sobre colaboração, sustentabilidade e tal, só não sei o quanto se manterá no caso de crescimento … quando a grana aumentar 😉

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