Arquivo da categoria: Inovação

Carreiras e empresas equilibram-se entre kaizen e kaikaku

Alta performance tem a ver com domínio, já inovação tem a ver com aprendizado, quer profissionais ou empresas, é preciso equilibrar o que sabemos e o novo. Como em um Eurotunel, precisamos de uma galeria para a produção e outra para a inovação, que mesmo possuindo diferentes bitolas são interligadas por tuneis de serviço, para equalização da pressão entre elas e assim avançar continuamente.

O perfil T ou Pi proposto para profissionais do século XXI, com profundidade e domínio, mas também amplitude de conhecimento, equivale a teoria da Capacidade Absortiva  “conjunto de procedimentos e rotinas pelas quais as empresas adquirem, assimilam, transformam e exploram conhecimento para produzir uma capacidade organizacional dinâmica” (Zahra e George, 2002).

Há quem pense em inovação como sendo algo pertinente ao lançamento de novos produtos ou serviços por empresas, mas a capacidade absortiva vai além desta percepção de inovação. Perceber oportunidades de evolução, melhoria, mudanças, quer em nossas carreiras, quer em processos, trabalho, relacionamentos, produtos ou serviços, tudo isso depende de visão, criatividade, inspiração, de inovação.

Autofagia / Zona de Conforto

Sou um profissional de TI, quando entrei no curso de análise de sistemas em 1981 eu ainda não sabia de fato que teria uma vida profissional que exigiria atualização e adaptação em um ritmo atípico comparado a outras profissões. A cada ano é possível perceber novas tecnologias, hard e soft skills surgindo e mudando, entre elas eu preciso decidir constantemente por novos aprendizados e domínios.

Se Darwin fosse de TI, não precisaria ter viajado a Galápagos para concluir que a sobrevivência não é do mais forte ou mais rápido, mas daquele que se adapta. Força e agilidade servem para lhe tirar de um apuro, mas olhando para o passar dos anos, precisamos perceber quais as mudanças e oportunidades melhor nos convém ou nos exigem para nos adaptarmos a elas.

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Profissionais que se acomodam em fazer bem feito aquilo que é pago para fazer vivem a ilusão de que sendo excelentes em determinado conhecimento, serão reconhecidos e regiamente pagos por isso. São profissionais de perfil I, satisfeitos com o que aprenderam e conquistaram, esquecendo que o mundo dá voltas, muda sem parar, novos conhecimentos, tecnologias e habilidades surgem e crescem.

Empresas conseguem liderar segmentos de mercado, agigantam-se para então apenas entrar para a história como um exemplo de falta de visão, incapacidade de se reinventar, não é porque não geraram bilionários, mas por falta desta percepção de continua evolução do mundo que não para de girar, apequenam-se e algumas até desaparecem porque alguém com menos recursos e mais visão as ultrapassa.

Kaikaku x Kaizen

Nossa vida e de nossas empresas fluem, equilibram, pendulam entre alta produtividade e inovação significativa. Enquanto em alta produtividade pode ser que pequenas melhorias e ajustes surjam, mas de tempos em tempos teremos mudanças de alto impacto. É como Kaikaku e Kaizen, o Kaizen é fazer bem o que sabemos fazer, com pequenas melhorias eventuais, para então termos o Kaikaku, que é um grande salto evolutivo.

O Kaizen é um continuo evolucionário, Kaikaku é revolucionário, sendo que o processo de melhoria quando praticado de forma consciente, orquestrada, tende a consumir cada vez menos energia e gerar melhores resultados. Não podemos esquecer o que Schein, Argyris ou Tofler preconizaram quanto ao desafio de aprender algo novo, ação que consome energia e deve ser entendida e dominada:

Exploration x Exploitation

Insisto muito a quem se interessou por este assunto, dá uma olhada no meu post de 2014 sobre uma resenha do artigo seminal de James G March de 1991 e minha interpretação – https://jorgekotickaudy.wordpress.com/2014/06/19/vale-a-pena-entender-o-exploitation-e-exploration/

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Savana Scrum – Use a receita, experimente, aprenda e melhore

Uma equipe ágil de alta performance deve estar sempre aberta a discutir e experimentar novas ou mesmo velhas receitas na intenção de melhorar, trata-se de um modelo mental voltado a melhoria contínua, redução de zonas de conforto.

Novas e talvez velhas receitas, porque nunca somos os mesmos, como a parábola do rio no ditado chinês, pode ser que técnicas tentadas antes agora tenham sucesso, porque desde então aprendemos, crescemos e talvez agora dê certo.

Pedra que rola não cria limo!

Uma equipe que “acha” que já faz o seu melhor e recusa sugestões para tentativa de melhoria indica haver uma grande zona de conforto ágil, uma trincheira ágil, o mundo de software precisa de profissionais de olhos abertos a inquietos.

É como uma receita típica, algumas perpetuam-se, mas sempre estarão sujeitas a serem o ponto de partida para novas receitas, com novos ingredientes, não porque a receita mudou, mas porque nós mudamos e queremos experimentar.

Não é incomum ver equipes ditas ágeis entrincheiradas, alheias a percepção ou acomodadas com seus pequenos e inevitáveis desperdícios. Todo o substrato ágil baseia-se no Lean, em princípios como Gemba e Kaizen … em continuum.

Por isso ciclos iterativo-incrementais-articulados, para nos lembrar que pequenas experimentações, uma dose quinzenal de inquietação nos faz lembrar o quanto ainda temos pequenos desperdícios ou oportunidades de crescimento.

Já falei sobre a inevitabilidade de ter um formador de opinião em cada time, é importante que ele tenha consciência de que o time não é seu, que sua experiência e influência deve ser do bem, aberto, incentivando e apoiando outras opiniões.

O ideal é equilíbrio, sempre com foco em adequado valor entregue em equidade, atendendo o negócio, com qualidade e excelência, sustentável, transparentes e realistas … inspiradas em missão, visão e objetivos acordados e monitorados.

Em TI é inevitável jamais estarmos no estado da arte, esta condição não é para gerar frustração, mas engajamento ao se ter consciência do mix de oportunidades que ainda não aproveitamos. Dinâmicos em baby steps, cadenciado, confortável.

Por essas e outras é que SCRUM continua sendo o método ágil mais utilizado no mundo, porque ele  não pressupõe idealizações, mas sugere ciclos, timeboxes, que bem aproveitados manterão a equipe ligada, alerta, disposta a experimentar.

Small Project Philosophy, um pequeno projeto de cada vez, cliente e fornecedor de outros projetos em programas e portfólios. Com releases plans, sprints, experimentando, curtindo, atendendo, entregando, aprendendo e melhorando.

Spoiler dos meus ppt’s do Agile Trends 2017

Serão duas sessões, a primeira é um jogo que será apresentado e jogado fora da grade do evento, no final do primeiro dia em uma das salas do Centro de Convenções cedida pela organização, a segunda é uma apresentação formal de um artefato que venho usando, chamado Scrum Setup Canvas.

Se você vai ao Agile Trends SP no dia 12/04, não esquece de passar no stand da DBServer e te inscrever para a apresentação e mão-na-massa do Desafio ToolBox que vai rolar logo após o término da grade oficial.

Se estiver por lá no dia 13/04 pela manhã, não perca o bloco comigo e com o Paulo Caroli … sim, não dá para pedir mais nada, o meu bloco ano passado foi com o Vitor Massari, este ano será com o grande Paulo Caroli.

12/04 as 18:10 – Desafio ToolBox 360°

Nesta quarta-feira, logo após as palestras do primeiro dia do Agile Trends 2017, as 18:10 no Centro de Convenções Rebouças, vai rolar a primeira edição aberta do Desafio ToolBox 360°. O jogo está evoluindo e ainda vai evoluir muito, mas após os primeiros Play Tests já ajustei o suficiente para ter a certeza de que agrega valor, provocações construtivas e passa um recado bem bacana.

O jogo é ao mesmo tempo colaborativo no atendimento de cenários reais e competitivo, posto que ao final temos um vencedor. Mas é preciso muita transparência, inspeção e adaptação para montar a melhor solução no somatório de forças de todos.

O jogo de início pode parecer complexo, mas para quem já jogou uma rodada é muito simples e divertido, ele possui um tabuleiro, cartas de cenário a serem atendidos, baralho com mais de 70 técnicas e boas práticas, além de um dado. Para o Agile Trends 2017 vou rodar com algumas simplificações, o jogo foi criado para ser jogado em empresas, fomentando sua capacidade absortiva.

A facilitação contará com um passo-a-passo em powerpoint e impresso para cada equipe, que contarão com um kit contendo o tabuleiro, fichas e baralhos. É para ser acima de tudo um momento de provocação quanto a conhecimento e domínio de técnicas oriundas de metodologias ágeis, design thinking, management 3.0, além de algumas bem tradicionais e ainda muito utilizadas.


Estou ao mesmo tempo pilhado e angustiado para que chegue de uma vez, já rodei vários play tests, com amigos, com Tecnotalkers, até com alunos na FACIN, o início sempre é um tanto aflitivo, mas conforme a galera vai jogando e entendendo é muito legal, quer profissionais ou alunos o feedback final sempre é muito bom.

Mas no tocante a ser um tanto complexo de início, não abri mão até aqui, pois é um jogo que nos induz a jogar três rodadas pelo menos, um tempo de mais ou menos uma hora. Para isso, são dois fluxos, um usando o baralho de Toolbox para atender um cenário e outro resultante do primeiro para mover sua ficha pelo perímetro do tabuleiro … é 100% colaborativo, mas alguém sairá vencedor.

13/04 as 10:50 – Trilha Comunidade – SSC

Finalmente vou apresentar para a comunidade ágil o artefato que batizei de Scrum Setup Canvas, criado para materializar e expôr acordos e combinações coletivas, quer metodológicas ou técnicas antes de uma inception ou planejamento. Muitas equipes deixam questões importantes como acordar boas práticas, frameworks, DoR, DoD, etc, para o acaso ou fragmentado entre diferentes pessoas e gavetas.

Assim como o jogo, este artefato ainda não parou de evoluir, a cada tanto mexo em algo de suas colunas e linhas, posto que a experimentação vai mostrando os caminhos. Mas está na hora de por a prova se ele é útil para muitas outras equipes e Agile Coachs, sendo para muitos já de conhecimento através aqui do Blog.

O formato final do Scrum Setup Canvas está como colado a seguir e os thumbs da apresentação em ppt está logo na sequência. Prometo que darei o máximo de detalhes dos meus 25 minutos de Trend Talk e interação com a galera logo após o evento encerrar, talvez o faça a caminho do aeroporto ou logo que chegar em POA.

Não garanto se é um Canvas a ser deixado a vista ou utilizado como aquecimento e depois defenestrado, caberá a empresas e equipes definirem, talvez alterar seus campos, mas tenho profunda convicção de que é útil, posto que por enquanto não há uma alternativa equivalente.

Vou postar muito mais detalhes do jogo e deste Canvas assim que passe o Agile Trends, neste mesmo batcanal … é o tempo de ir a SP e voltar rapidinho  \o/

12/04 – Lançamento Desafio ToolBox 360º no Agile Trends 2017

Lanço aqui o desafio aos meus contatos no Facebbok que irão ao Agile Trends 2017 no Centro de Convenções Rebouças na semana que vem em SP, no final do primeiro dia de evento estarei fazendo uma oficina de Desafio ToolBox 360º para quem for no stand da DBServer durante o primeiro dia e se inscrever.

A oficina será mão na massa e vai rodar com quem estiver disposto a mostrar que sorte e conhecimento andam juntos, porque é um jogo no qual o conhecimento de técnicas de ideação, modelagem, planejamento, discovery, delivery e gestão do conhecimento podem desequilibrar a força dos dados e das cartas.

A diversão e a vitória é apenas um efeito colateral, porque o objetivo é o desafio de conhecer 80 técnicas e boas práticas que usamos no nosso dia-a-dia. O jogo estará por muito tempo ainda em evolução, mas já é resultado de diversos play tests e experiências com amigos queridos que se dispuseram a ser minhas cobaias 🙂

As fotos abaixo no banner são desta semana em minha aula de Tópicos Especiais em Engenharia de Software, acho que minha principal inspiração ao idealizar a partir do livro ToolBox 360º – foco em aprendizagem, na provocação em saber mais sobre boas práticas, de forma lúdica e divertida … nos vemos em SanPa:

Aqui vai novamente um tira-gosto com dicas do tabuleiro e cartas \o/

Algumas das fases da evolução do jogo mostram o quanto ele evoluiu e irá adiante:

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Spoiler da minha palestra para o Agile Trends

O maior risco na adoção ágil, é sucumbir ao Extreme Go Horse (XGH), originada na falta de entendimento, o desconhecimento da “Dude’s Law” de David Hussman e dos riscos do “Agile Cargo Cult”. Mudança é um processo sócio-técnico que nos exige esforço e desapego do velho e muita dedicação ao novo, nestas condições é mais fácil usar de dissonância cognitiva ou uma venda enquanto deixamos rolar.

Tanto quanto um bom Project Model Canvas para um produtivo Kickoff do projeto, antes e durante o planejamento é preciso estar atento ao que chamo de balizas, que conduzirão nossa linha de raciocínio e tomadas de decisão. Chute é XGH, estimativas ágeis são fruto de experiências calibradas, colaboração baseada em transparência e realismo com foco e engajamento para fazer certo.

É o que eu diferencio entre o ERRO certo ou ERRO errado, errar tentando ser ágil, ceryto de seus limites e tentando acertar, conscientemente, ousando, é uma coisa diferente de errar por XGH, fruto de relaxamento, displicência ou leviandade. Antes de estimar é preciso materializar sob que bases estaremos todos em comum acordo, informações até aqui fragmentadas e distribuídas em cabeças e gavetas.

SCRUM SETUP CANVAS

Não trás nada de novo, nada que equipes experientes já não tenham estabelecido, mas que equipes novas tendem a gerar diferenças ocultas de expectativas, casuais ou propositais. Já vi casos em que um gestor esforçava-se em omitir de seu chefe certos acordos feitos pelo time com ele para determinado projeto. Estes acordos devem estar na parede, bases dos 3 pilares – transparência | inspeção | adaptação.

No exemplo abaixo aconteceu algo bem comum, o exercício com o Scrum SetUp Canvas provocou várias definições antes ocultas sobre exigências e critérios mínimos e máximos exigidos, formatos e padrões, tecnologias e ferramentas. No caso em questão, o exercício do SSC por si só já exigiu uma série de histórias técnicas adicionais, como provas de conceitos ou aumento na reserva técnica.

Projetos dão mais errado por informações varridas casual ou propositalmente para baixo do tapete do que por surpresas realmente imprevisíveis, o ser humano do século XXI ainda prefere ficar no seu quadrado hoje e procastinar para amanhã as argumentações e negociações. Ao invés de enfrentar de frente hoje, usamos da síndrome do estudante para empurrar sempre para o dia seguinte aquilo que não queremos fazer … até a última hora ou ser tarde demais.

A palestra terá uma abordagem bem provocativa, como todas as outras, costumo defender que quando palestro ou treino não tenho tempo para mandar dizer ou ser sutil, tenho muito pouco tempo para passar o recado, até prova em contrário é o motivo que me levou a estar ali … meu papel usar 18 min para botar a boca no trombone e esperar que os 18 min seguintes sejam de muitas perguntas e debates 🙂

A tempo, a palestra é no segundo dia, mas no final do primeiro dia vai rolar uma sessão de DESAFIO TOOLBOX 360º, espero todos lá para experimentar, é um jogo que mescla ensino e aprendizagem de todos para todos. Exige de cada participante muita atenção e colaboração em cada rodada  \o/

Agile e democracia não é só a voz da maioria, é mais que isso

Agile tem muito a ver com experimentação e aprendizado, direto ou indireto, de forma que busquemos compreender o que aconteceu a cada ciclo, o que poderia ou deveria ter acontecido, estabelecendo um mindset de melhoria contínua. Com este fim, devemos buscar mais que “maioria”, que mesmo estabelecida, é preciso ouvir, mitigar ou potencializar desafios percebidos pelas minorias.

Não fosse assim, correríamos o risco da ditadura da maioria, acho que inexiste democracia ou agilidade se não houver um senso de corpo que nos mova a sempre tentar entender o outro, gerar empatia, buscar sinergia. Para tanto, além de conhecer a maioria, também é preciso entender e respeitar a minoria. A pena pode ser desperdício, negar a inovação, a disrupção.

Todos nós somos dados a crenças e ideais, ao compreendermos algo como útil, gerador de valor para o atingimento de nossos objetivos, tentamos utilizá-lo de forma melhor possível … tem muito a ver com o que o psicólogo Albert Bandura chamou de Aprendizado Vicariante, desde crianças repetimos aquilo que percebemos como bom e positivo para nós ou a quem queremos bem.

Por isso, lastreamos decisões e ações a nossos princípios, que agem em nossa vida de forma cumulativa e complementar desde a infância, por auto-preservação, bem ao próximo, religião, muitos são escoteiros, praticantes de artes marciais, conheço uma galera que é agilista. A soma disso tudo faz com que assumamos um papel colaborativo, que nos define enquanto seres sociais.

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Após entender isso é que agilidade começa a fazer sentido, porque a simples maioria pode ser tão perniciosa ou pior que comando-controle. Por isso os frameworks baseados em Lean iniciam pelo conceito de empatia, derrubando feudos, construindo um senso ampliado de time, liberdade e responsabilidade. É preciso relevar prós e contras, assumir riscos, convergir é mais que decidir!

No berço da democracia, Sócrates e Platão falaram sobre a Tirania da Maioria (oclocracia). Em agilidade, o conceito por trás de um senso ampliado de time, é investir e valorizar o protagonismo de todos. Todo e qualquer grupo humano possui formadores de opinião, que exercem algum tipo de liderança, cabe ao conjunto auto-conhecer-se e gerar decisões, executá-las, discuti-las e aprender.

Ter direito a opinião e feedback, valorizar a argumentação, buscar tomar decisões conscientes, não só pela maioria ou por conveniência, mas por estratégia. Se queremos gerar valor, é preciso ter a responsabilidade de entender seu contexto, que pode e é normal que mude a cada ciclo, a cada entrega, tomada de decisão, time to market, ROI, sustentabilidade, … fosse fácil, todo mundo já faria!

Agilidade é um grande desafio a todos os envolvidos, todos precisam mudar a forma como se relacionam – o cliente tem que participar de fato, o time deve se auto-organizar, as lideranças tem que se reinventar, praticar devops para gerar melhores resultados, todos em conjunto devem gerar mais valor, … tudo isso é mais que imposição ou maioria, porque maioria é a mesma Zona de Conforto!

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Mais uma carta aberta sobre Design Thinking

Dando uma olhada em um treinamento de Design Thinking ministrado pelo Eduardo Peres, me dei conta sobre o quanto um bom curso pode em menos de um dia passar a essência prática do modelo mental e boas práticas relacionadas a DT. Todo o treinamento segue a condução e técnicas sugerida pela Design Scholl de Stanford e IDEO em seus cursos e artigos. É um bom primeiro passo, porque não é solto, é como nossos cursos ágeis, do início ao fim é um encadeamento de exercícios específicos para cada cliente, do seu contexto, da vida real.

Mas eu vou além, peso custo-benefício, DT cotidiano, não só o disruptivo da IDEO ou brainstorming e validações de impacto do Design Council, mas o cotidiano da capacidade absortiva, da resolução de problemas, sem ouvir os pseudos-gurus do tudo ou nada, da glamourização, é aplicar no DT um modelo equivalente ao Agile Fluence Model de Shore e Larsen. Quer ser um DThinker, comece aos poucos, gere valor, ganhe créditos, vá evoluindo.

Design Thinking é muito mais que 50% dos cursos de Design Thinking oferecem, simplesmente porque 50% se esforçam para parecerem descolados e acabam sendo uma sucessão de jogos e dinâmicas que não geram nos alunos clareza em como vão resolver seus desafios da vida real após o treinamento … DT precisa ser mais que cores e purpurina disruptiva, deve ser conhecimento aplicado, tem que ter resultado, o curso versus realidade prática precisa ter MVP!

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Assim como Agile Cargo Cult (vale a pena ler se você nunca ouviu falar) é a antítese de cursos de métodos ágeis sérios, os ôba-ôbas de Design Thinking só servem para artes cênicas e glamour dos instrutores, trazendo benefícios reais às fotos e posts em redes sociais. Design Thinking é Agile, traz resultados práticos, transformação imediata, técnicas e artefatos melhores que antes, ou serão só algumas horas do recreio e depois serão esquecidos ou abandonados.

A crescente profusão de cursos e workshops de boutique são um desserviço, em meu trabalho como Agile Coach tenho convicção de que aplico este mindset, não o incensado pelos gurus e idealistas, mas com Design Thinking da vida real. Este tem a ver com timing, inve$timento, pessoas, expectativas, podemos ser sem incensar ou podem incensar sem ser.

Assim como gastar dinheiro em postits e colá-los na parede não quer dizer que entendeu e pratica KANBAN, fazer daily e trabalhar em sprints não quer dizer que entendeu e pratica SCRUM, usar lego-lego e sucata chique colorida não quer dizer que entendeu e pratica DESIGN THINKING. Os três são resultado de um modelo mental que busca o equilíbrio entre pessoas, técnicas, energia e valor, dentro do possível, iterativo-incremental-articulado, validando step-by-step.

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A seguir uma lista de técnicas que podem ser tanto grandes geradoras de muito desperdício quanto de valor, tudo depende do mindset, atitude e compromisso das pessoas que as utilizam para gerar o que de melhor pode ser gerado, de forma consciente, iterativo-incremental-articulado ou apenas mise-en-scéne.

Banco de Ideias e oportunidades – A criação momentânea ou a manutenção de um banco de ideias, oportunidades, conhecimentos, informações, é algo muito relevante para uma proposta de estabelecimento de um novo mindset e processo de trabalho mais criativo e colaborativo. O conceito pode ser voltado à técnica de funil ou processo de seleção, mas também pode ser um banco permanente que contenha inserções como comentários, complementos, lições aprendidas, etc;

Elevator Statement e Charetting – Materialize o que acham que sabem e façam sucessivos ciclos de discussão sob diferentes prismas, alterando o prisma e pressupostos. Para perceber alternativas até então ocultas, é preciso abandonar o óbvio, explorar em todas as direções, que podem ter base real ou fictícias. É fazer perguntas inesperadas, é supor bases opostas às afirmações feitas pelos clientes ou hipóteses iniciais;

5W2H e Oficina de Futuro – Duas técnicas que nos permitem e potencializam brainstormings super-dirigidos, focados, o primeiro parte de nossas dúvidas ou questionamentos, o segundo esclarece todas as percepções de problemas, desafios, oportunidades não aproveitadas. Ambas terminam por tentar obter as respostas para nossas inquietações, algumas se transformam em próximos passos e nos orientam no planejamento a partir dali;

Benchmark e Repertorização – É mais que analisar a concorrência, mas é tirar o máximo de proveito dos dados, informações e conhecimentos disponíveis sobre qualquer fonte, física ou virtual, primária ou secundária. É como um arquiteto ou estilistas que não só buscam inspiração em suas ou outras obras e coleções, mas busca inspiração nas artes, nas ruas, revistas, hoje em dia a web é ponto de partida para tudo, mas com o cuidado de não se limitar, porque o mundo real desperta outros sentidos e percepções;

Get Out Of The Building – Na maior parte das vezes a melhor forma de entender é ver, é sair do conforto da sala, do computador, da segurança da equipe, é ousar observar, perguntar, experimentar, vivenciar, é mais que entrevistas, é Gemba, é ir onde as coisas podem acontecer de verdade. Não é perguntar para pessoas que sabem o que você está fazendo ali, mas ir de encontro a pessoas que não possuem pré-conceitos e briefing sobre o assunto;

Entrevistas individuais, em grupo, focais, extremos – Todo e qualquer tipo de pesquisa deve ter uma organização prévia, não um roteiro, mas uma organização. É preciso estar preparado para tirar o máximo de proveito e informações, conhecimentos e validações. Fazê-las despreparado podem torná-la pior que inócuas, porque elas podem validar incorretamente por terem sido tendenciosas ou o improviso nos trair por displicência … entrevista não pode ser Go Horse: Prepare-se, tire a bunda da cadeira, vá a campo e entenda as pessoas;

Diário de Bordo e Observação – É a técnica de NÃO perguntar ou responder, mas registrar de todas as formas o dia-a-dia de quem você quer estudar, entender e ajudar. Como diários, fotografe, grave, filme, peça depoimentos, abstraia roteiros, registre pensamentos, insights, cenários principais versus alternativos. O diário pode ser confeccionado com as mais diferentes técnicas de registro e pode ser criado e mantido pela própria pessoa estudada ou por um observador externo, eu ou você por exemplo;

Customer Journey Map e Value Stream Mapping – Técnicas de mapas com informações úteis, mais quadradinhas nas suas origens, mas que eu uso neste novo paradigma, como um storytelling, baseado em empatia, mapeando o passo-a-passo da jornada, desde o início até o fim, do ator ou situação estudada. É como a construção de cenários possíveis, marcando o sentimento do usuário em relação a cada passo, ambiente, ferramenta, pessoas, interação, tudo;

Matriz CSD (Certezas, Suposições e Dúvidas) – Uma forma de brainstorming onde mapeamos todas as nossas certezas sobre o que estamos estudando ou nos propondo, todas as dúvidas que precisamos endereçar e sanar, enquanto suposições são tão somente ítens que vieram a tona mas que não sabemos se serão ou não úteis, podendo no futuro serem descartados, pesquisados, transformados em certezas ou convertidos em dúvidas;

Análise Causal – Exemplo de técnicas para ideação e resolução de problemas como o Managing Dojo do Manoel Pimentel, assim como os antigos diagramas Ishikawa e Pareto facilitadas de forma mais colaborativas e menos engessadas, são técnicas voltadas a identificação de efeitos x causas.

Mapas mentais – Físico ou virtual, na medida em que avançamos nossa visão sobre o tema que estamos tentando gerar empatia, entender e ajudar de alguma forma. Nas paredes ou ferramentas, agrupados em clusters (nuvens) e mapas, converge para lá tudo o que temos, resultados oriundo das mais diferentes técnicas aplicadas. Os mapas podem ser em estrela, hierárquicos, radiais, em rede, na forma que melhor representar o entendimento. O meio mais comum são postits ou cards, coloridos ou com selos, eu os colo com fita crepe;

Personas, Empathy Canvas e Value Proposition Canvas – São técnicas úteis para mapear e entender o melhor possível nossos diferentes clientes, usuários ou público alvo. Exercício de empatia essencial para perceber como ele pensa, o que ele sente, como se posiciona, buscando materializar suas dores, ganhos, percepções e expectativas em relação ao nosso projeto ou assunto.

Workshop de Cocriação, pretotipação, prototipação – Dinâmica única ou sequência de encontros reunindo o melhor mix possível de personas, posto que o mix de perfis garante diferentes prismas e bagagem em meio a um processo de ideação e modelagem. Construção ou desenho de Mocks, sucata, prototipação, UX Dojo, etc, em ambientes e dinâmicas descontraídas, divertidas, com com foco, liberdade com responsabilidade, é sucessivamente aproximar-se da borda do caos e retornar com opções e soluções.

Validation Canvas e Validated Learning – Exemplos de artefatos que auxiliam no planejamento dos processos ágeis de validação de hipóteses, uma forma de organizar e explicitar o necessário esforço de confirmação de premissas, restrições, riscos, oportunidades, tudo o que hipotetizamos na maioria das outras técnicas aqui listadas.

Teatralização e StoryTelling – Uso de recursos cênicos ou literários com o objetivo de materializar situações com foco em aumentar a empatia, exercícios em que um estudo e entendimento sobre uma persona pode ter alguém que represente o mesmo em certas situações. Assim podemos apresentar com detalhes nosso entendimento, podemos fazer simulações, exercitar AS IS e TO BE, há uma infinidade de oportunidades e possibilidades.

O link abaixo tem um dos livros mais conhecidos em formato slideshare, pode ajudar para dar uma folheada e decidir se vale a pena comprar ou para pinçar algum tópico mais aprofundado.