Mindset Lean (enxuto) é legado do pós-guerra japonês

A dois anos atrás iniciei uma caminhada de volta as origens dos métodos ágeis, pois apesar de ter-se criado um graaaaande negócio ao redor de metodologias ágeis para desenvolvimento de software, tudo começou por motivos que muitos dos atuais praticantes não entendem e deveriam entender, pois quem pratica Agile com muito comando-controle e desperdícios múltiplos está mais para Taylor e Fayol que para Deming e Taiichi.

Tudo começou no pós-guerra japonês, momento em que o país não dispunha de recursos suficientes de qualquer espécie,  humanos, econômicos, insumos fabris, com duas cidades dizimadas por bombas atômicas, derrotados em uma guerra em que eram da turma dos bandidos do eixo (alemanha-itália-japão).

bombaatomica

Naquela época, os Estados Unidos e Europa tinham interesse em não cometer o mesmo erro do final da primeira guerra mundial, quando o revanchismo e o direito divino dos vencedores autorizaram a busca por uma compensação dos ‘prejuízos’ gerados pelos Alemães, que anos depois, falidos, iniciaram a segunda.

Bem, há várias versões para as origens reais e finais de cada uma das guerras mundiais, não quero entrar neste mérito, apenas contextualizar o que segue:

No pós-guerra, na década de 50, os japoneses, italianos e alemães interagiram com Americanos e Europeus para se reerguer, no caso dos Japoneses as visitas a empresas americanas e europeias tinham o objetivo de modernizar-se, mas eles chegaram a conclusão de que teriam que ir além, teriam que “enxugar”, carentes de recursos de todo tipo teriam que fazer mais com menos, aproveitar melhor seus parcos recursos humanos, econômicos e materiais.

É lendária a percepção japonesa de que a indústria americana gerava muito desperdício por motivos não aderentes a sua cultura, pois nela as pessoas teriam que ser responsáveis pelo que faziam, minimizando os custos e aumentando os resultados, a linha de comando e gerenciamento industrial ocidental apontavam para a direção oposta … ‘operários deveriam executar e não pensar’ ou ‘gerentes devem definir o processo e tomar as decisões’, ‘resultados justificam meios’.

Enviado ao Japão durante este esforço, Richard Deming foi um estatístico americano que colaborou decisivamente, seguindo preceitos de Walter Shewart em estudos estatísticos, apoiou desde o senso até um novo modelo gerencial e fabril baseado em um programa de qualidade total de 14 pontos, muitos contrapondo ícones da escola de administração clássica de Taylor e Fayol, em um resuminho poético seriam:

1. Trabalhar para melhorar, perpetuando, mantendo e gerando empregos;
2. Adaptar-se a nova era econômica;
3. Trocar a inspeção por uma cultura de qualidade total, envolvendo a todos;
4. Racionalizar e repactuar a cadeia de produção com todos os envolvidos;
5. Adotar melhoria contínua em todo o processo = +qual, +prod, -custos;
6. Fomentar aprendizado interno para crescimento das pessoas e processo;
7. Adotar o modelo de Coach, ajudando as pessoas à um trabalho melhor;
8. Eliminar o medo;
9. Investir na construção de um ecossistema, quebrando silos e competição;
10. Eliminar slogans, exortações, e metas dirigidas aos empregados;
11. Eliminar métricas artificiais ao operariado, evitar gestão por objetivos;
12. Deve haver senso de pertença e poder nas pessoas sobre seu trabalho;
13. Valorizar o orgulho de todos os envolvidos direta ou indiretamente;
14. As mudanças, melhorias e transformações são tarefa e meta de todos.

Sua obra mais conhecida do grande público não foi sua decisiva contribuição na área da estatística, na potencialização de um modelo que revolucionou o mindset japonês de produtor de produtos baratos para produtos de qualidade, alto valor agregado e com diferenciais competitivos inovadores, ele sempre será lembrado pelo ciclo de Deming, o famoso PDCA:

PDCL

O Ciclo Iterativo-Incremental de Deming já recebeu diferentes visões, aportes e desdobramentos, nomes e alcunhas: Ciclo PDCA, Ciclo de Deming, Ciclo de Shewhart, PDSA, PDCL, OPDCA, Ciclo de controle, eu mesmo o batizei de PDCLa, que é um PDCL Ágil com 6 mantras, cfe segue:

PDCLA FULL

A filosofia Lean oriunda do colapso japonês do pós-guerra é mais que um framework ou método, nasceu na indústria, foi adotada pela TI e vale para a vida, um modelo mental que combate todo tipo de desperdício e estoques desnecessários. É filosofia porque esta alicerçada em perguntar os porquês, em ver o todo e as partes, em ir além do que esta visível, contra o status quo que não se importava com seus desperdícios e estoques:

  • Estoque de idéias;
  • Estoque de surpresas, apresentadas após concluídas;
  • Estoque de soluções na cabeça das pessoas que não são envolvidas;
  • Desperdício de centralização de comando sem perguntar;
  • Desperdício de produção do que não é necessário;
  • Desperdício de tempo em planejamentos de longo prazo;
  • Estoque de eternas explicações para falhas previsíveis e conhecidas;
  • etc etc etc, afinal, sempre temos recursos e energia de sobra  😦
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